Com a promessa de reduzir a dengue, bio fábrica de insetos já
soltou 18 milhões de Aedes aegypti no interior da Bahia
No começo da noite de uma quinta-feira de setembro, a
rodoviária de Juazeiro da Bahia era o retrato da desolação. No saguão mal
iluminado, funcionavam um box cuja especialidade é caldo de carne, uma
lanchonete de balcão comprido, ornado por salgados, biscoitos e batata chips, e
um único guichê – com perturbadoras nuvens de mosquitos sobre as cabeças de
quem aguardava para comprar passagens para pequenas cidades ou capitais
nordestinas. Assentada à beira do rio São Francisco, na fronteira entre
Pernambuco e Bahia, Juazeiro já foi uma cidade cortada por córregos, afluentes
de um dos maiores rios do país. Hoje, tem mais de 200 mil habitantes, compõe o
maior aglomerado urbano do semiárido nordestino ao lado de Petrolina – com a
qual soma meio milhão de pessoas – e é infestada por muriçocas (ou pernilongos,
se preferir). Os cursos de água que drenavam pequenas nascentes viraram esgotos
a céu aberto, extensos criadouros do inseto, tradicionalmente combatidos com
inseticida e raquete elétrica, ou janelas fechadas com ar condicionado para os
mais endinheirados.
Mas os moradores de Juazeiro não espantam só muriçocas nesse
início de primavera. A cidade é o centro de testes de uma nova técnica
científica que utiliza Aedes aegypti transgênicos para combater a
dengue, doença transmitida pela espécie. Desenvolvido pela empresa britânica de
biotecnologia Oxitec, o método consiste basicamente na inserção de um gene
letal nos mosquitos machos que, liberados em grande quantidade no meio
ambiente, copulam com as fêmeas selvagens e geram uma cria programada para
morrer. Assim, se o experimento funcionar, a morte prematura das larvas reduz
progressivamente a população de mosquitos dessa espécie. A técnica é a mais
nova arma para combater uma doença que não só resiste como avança sobre os
métodos até então empregados em seu controle. A Organização Mundial de Saúde
estima que possam haver de 50 a
100 milhões de casos de dengue por ano no mundo. No Brasil, a doença é
endêmica, com epidemias anuais em várias cidades, principalmente nas grandes
capitais. Em 2012, somente entre os dias 1º de janeiro e 16 de fevereiro, foram
registrados mais de 70 mil casos no país. Em 2013, no mesmo período, o número praticamente
triplicou, passou para 204 mil casos. Este ano, até agora, 400 pessoas já
morreram de dengue no Brasil.
Em Juazeiro, o método de patente britânica é testado pela
organização social Moscamed, que reproduz e libera ao ar livre os mosquitos
transgênicos desde 2011. Na bio fábrica montada no município e que tem
capacidade para produzir até 4 milhões de mosquitos por semana, toda cadeia
produtiva do inseto transgênico é realizada – exceção feita à modificação
genética propriamente dita, executada nos laboratórios da Oxitec, em Oxford. Larvas
transgênicas foram importadas pela Moscamed e passaram a ser reproduzidas nos
laboratórios da instituição.
Os testes desde o início são financiados pela Secretaria da
Saúde da Bahia – com o apoio institucional da secretaria de Juazeiro – e no
último mês de julho se estenderam ao município de Jacobina, na extremidade
norte da Chapada Diamantina. Na cidade serrana de aproximadamente 80 mil
habitantes, a Moscamed põe à prova a capacidade da técnica de “suprimir” (a palavra
usada pelos cientistas para exterminar toda a população de mosquitos) o Aedes
aegypti em toda uma cidade, já que em Juazeiro a estratégia se mostrou eficaz,
mas limitada por enquanto a dois bairros.
“Os resultados de 2011 e 2012 mostraram que [ a técnica ]
realmente funcionava bem. E a convite e financiados pelo Governo do Estado da
Bahia resolvemos avançar e irmos pra Jacobina. Agora não mais como piloto, mas
fazendo um teste pra realmente eliminar a população [ de mosquitos ]”, fala
Aldo Malavasi, professor aposentado do Departamento de Genética do Instituto de
Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e atual presidente da Moscamed.
A USP também integra o projeto.
Malavasi trabalha na região desde 2006, quando a Moscamed
foi criada para combater uma praga agrícola, a mosca-das-frutas, com técnica
parecida – a Técnica do Inseto Estéril. A lógica é a mesma: produzir insetos
estéreis para copular com as fêmeas selvagens e assim reduzir gradativamente
essa população. A diferença está na forma como estes insetos são esterilizados.
Ao invés de modificação genética, radiação. A TIE é usada largamente desde a
década de 1970, principalmente em espécies consideradas ameaças à agricultura.
O problema é que até agora a tecnologia não se adequava a mosquitos como o
Aedes aegypti, que não resistiam de forma satisfatória à radiação.
Plano de comunicação
As primeiras liberações em campo do Aedes transgênico foram realizadas nas
Ilhas Cayman, entre o final de 2009 e 2010. O território britânico no Caribe,
formado por três ilhas localizadas ao Sul de Cuba, se mostrou não apenas um
paraíso fiscal (existem mais empresas registradas nas ilhas do que seus 50 mil
habitantes), mas também espaço propício para a liberação dos mosquitos
transgênicos, devido à ausência de leis de biossegurança. As Ilhas Cayman não
são signatárias do Procolo de Cartagena, o principal documento internacional
sobre o assunto, nem são cobertas pela Convenção de Aarthus – aprovada pela
União Europeia e da qual o Reino Unido faz parte – que versa sobre o acesso à
informação, participação e justiça nos processos de tomada de decisão sobre o
meio ambiente.
Ao invés da publicação e consulta pública prévia sobre os
riscos envolvidos no experimento, como exigiriam os acordos internacionais
citados, os cerca de 3 milhões de mosquitos soltos no clima tropical das Ilhas
Cayman ganharam o mundo sem nenhum processo de debate ou consulta pública. A
autorização foi concedida exclusivamente pelo Departamento de Agricultura das
Ilhas. Parceiro local da Oxitec nos testes, a Mosquito Research & Control
Unit (Unidade de Pesquisa e Controle de Mosquito) postou um vídeo promocional
sobre o assunto apenas em outubro de 2010, ainda assim sem mencionar a natureza
transgênica dos mosquitos. O vídeo foi divulgado exatamente um mês antes da
apresentação dos resultados dos experimentos pela própria Oxitec no encontro
anual da American Society of Tropical Medicine and Hygiene(Sociedade Americana
de Medicina Tropical e Higiene), nos Estados Unidos.
A comunidade científica se surpreendeu com a notícia de que
as primeiras liberações no mundo de insetos modificados geneticamente já haviam
sido realizadas, sem que os próprios especialistas no assunto tivessem
conhecimento. A surpresa se estendeu ao resultado: segundo os dados da Oxitec, os
experimentos haviam atingido 80% de redução na população de Aedes aegypti nas
Ilhas Cayman. O número confirmava para a empresa que a técnica criada em
laboratório poderia ser de fato eficiente. Desde então, novos testes de campo
passaram a ser articulados em outros países – notadamente subdesenvolvidos ou
em desenvolvimento, com clima tropical e problemas históricos com a dengue.
Depois de adiar testes semelhantes em 2006, após protestos,
a Malásia se tornou o segundo país a liberar os mosquitos transgênicos entre
dezembro de 2010 e janeiro de 2011. Seis mil mosquitos foram soltos num área
inabitada do país. O número, bem menor em comparação ao das Ilhas Cayman, é
quase insignificante diante da quantidade de mosquitos que passou a ser
liberada em Juazeiro da Bahia a partir de fevereiro de 2011. A cidade, junto com
Jacobina mais recentemente, se tornou desde então o maior campo de testes do
tipo no mundo, com mais de 18 milhões de mosquitos já liberados, segundo
números da Moscamed.
“A Oxitec errou profundamente, tanto na Malásia quanto nas
Ilhas Cayman. Ao contrário do que eles fizeram, nós tivemos um extenso trabalho
do que a gente chama de comunicação pública, com total transparência, com
discussão com a comunidade, com visita a todas as casas. Houve um trabalho
extraordinário aqui”, compara Aldo Malavasi.
Em entrevista por telefone, ele fez questão de demarcar a
independência da Moscamed diante da Oxitec e ressaltou a natureza diferente das
duas instituições. Criada em 2006,
a Moscamed é uma organização social, sem fins lucrativos
portanto, que se engajou nos testes do Aedes aegypti transgênico com
o objetivo de verificar a eficácia ou não da técnica no combate à dengue.
Segundo Malavasi, nenhum financiamento da Oxitec foi aceito por eles justamente
para garantir a isenção na avaliação da técnica. “Nós não queremos dinheiro
deles, porque o nosso objetivo é ajudar o governo brasileiro”, resume.
Em favor da transparência, o programa foi intitulado
“Projeto Aedes Transgênico” (PAT), para trazer já no nome a palavra espinhosa.
Outra determinação de ordem semântica foi o não uso do termo “estéril”,
corrente no discurso da empresa britânica, mas empregada tecnicamente de forma
incorreta, já que os mosquitos produzem crias, mas geram prole programada para
morrer no estágio larval. Um jingle pôs o complexo sistema em linguagem popular
e em ritmo de forró pé-de-serra. E o bloco de carnaval “Papa Mosquito” saiu às
ruas de Juazeiro no Carnaval de 2011.
No âmbito institucional, além do custeio pela Secretaria de
Saúde estadual, o programa também ganhou o apoio da Secretaria de Saúde de
Juazeiro da Bahia. “De início teve resistência, porque as pessoas também não
queriam deixar armadilhas em suas casas, mas depois, com o tempo, elas
entenderam o projeto e a gente teve uma boa aceitação popular”, conta o
enfermeiro sanitarista Mário Machado, diretor de Promoção e Vigilância à Saúde
da secretaria.
As armadilhas, das quais fala Machado, são simples
instrumentos instalados nas casas de alguns moradores da área do experimento.
As ovitrampas, como são chamadas, fazem as vezes de criadouros para as fêmeas.
Assim é possível colher os ovos e verificar se eles foram fecundados por machos
transgênicos ou selvagens. Isso também é possível porque os mosquitos
geneticamente modificados carregam, além do gene letal, o fragmento do DNA de
uma água-viva que lhe confere uma marcação fluorescente, visível em
microscópios.
Desta forma, foi possível verificar que a redução da
população de Aedes aegypti selvagem atingiu, segundo a Moscamed, 96% em
Mandacaru – um assentamento agrícola distante poucos quilômetros do centro
comercial de Juazeiro que, pelo isolamento geográfico e aceitação popular, se
transformou no local ideal para as liberações. Apesar do número, a Moscamed
continua com liberações no bairro. Devido à breve vida do mosquito (a fêmea
vive aproximadamente 35 dias), a soltura dos insetos precisa continuar para
manter o nível da população selvagem baixo. Atualmente, uma vez por semana um
carro deixa a sede da organização com 50 mil mosquitos distribuídos aos
milhares em potes plásticos que serão abertos nas ruas de Mandacaru.
“Hoje a maior aceitação é no Mandacaru. A receptividade foi
tamanha que a Moscamed não quer sair mais de lá”, enfatiza Mário Machado.
O mesmo não aconteceu com o bairro de Itaberaba, o primeiro
a receber os mosquitos no começo de 2011. Nem mesmo o histórico alto índice de
infecção pelo Aedes aegypti fez com que o bairro periférico juazeirense,
vizinho à sede da Moscamed, aceitasse de bom grado o experimento. Mário Machado
estima “em torno de 20%” a parcela da população que se opôs aos testes e pôs fim
às liberações.
“Por mais que a gente tente informar, ir de casa em casa, de
bar em bar, algumas pessoas desacreditam: ‘Não, vocês estão mentindo pra gente,
esse mosquito tá picando a gente’”, resigna-se.
Depois de um ano sem liberações, o mosquito parece não ter
deixado muitas lembranças por ali. Em uma caminhada pelo bairro, quase não
conseguimos encontrar alguém que soubesse do que estávamos falando. Não
obstante, o nome de Itaberaba correu o mundo ao ser divulgado pela Oxitec que o
primeiro experimento de campo no Brasil havia atingido 80% de redução na
população de mosquitos selvagens.
Supervisora de campo da Moscamed, a bióloga Luiza Garziera
foi uma das que foram de casa em casa explicando o processo, por vezes
contornando o discurso científico para se fazer entender. “Eu falava que a
gente estaria liberando esses mosquitos, que a gente liberava somente o macho,
que não pica. Só quem pica é a fêmea. E que esses machos quando ‘namoram’ –
porque a gente não pode falar às vezes de ‘cópula’ porque as pessoas não vão
entender. Então quando esses machos namoram com a fêmea, os seus filhinhos
acabam morrendo”.
Este é um dos detalhes mais importantes sobre a técnica
inédita. Ao liberar apenas machos, numa taxa de 10 transgênicos para 1
selvagem, a Moscamed mergulha as pessoas numa nuvem de mosquitos, mas garante
que estes não piquem aqueles. Isto acontece porque só a fêmea se alimenta de
sangue humano, líquido que fornece as proteínas necessárias para sua ovulação.
A tecnologia se encaixa de forma convincente e até didática
– talvez com exceção da “modificação genética”, que requer voos mais altos da
imaginação. No entanto, ainda a ignorância sobre o assunto ainda campeia em
considerável parcela dos moradores ouvidos para esta reportagem. Quando muito,
sabe-se que se trata do extermínio do mosquito da dengue, o que é naturalmente
algo positivo. No mais, ouviu-se apenas falar ou arrisca-se uma hipótese que
inclua a, esta sim largamente odiada, muriçoca.
Avaliação dos riscos
Apesar da campanha de comunicação da Moscamed, a ONG britânica GeneWatch aponta
uma série de problemas no processo brasileiro. O principal deles, o fato do
relatório de avaliação de riscos sobre o experimento não ter sido
disponibilizado ao público antes do início das liberações. Pelo contrário, a
pedido dos responsáveis pelo Programa Aedes Transgênico, o processo encaminhado
à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio, órgão encarregado de
autorizar ou não tais experimentos) foi considerado confidencial.
“Nós achamos que a Oxitec deve ter o consentimento
plenamente informado da população local, isso significa que as pessoas precisam
concordar com o experimento. Mas para isso elas precisam também ser informadas
sobre os riscos, assim como você seria se estivesse sendo usado para testar um
novo medicamento contra o câncer ou qualquer outro tipo de tratamento”,
comentou, em entrevista por Skype, Helen Wallace, diretora executiva da
organização não governamental.
Especialista nos riscos e na ética envolvida nesse tipo de
experimento, Helen publicou este ano o relatório Genetically Modified
Mosquitoes: Ongoing Concerns (“Mosquitos Geneticamente Modificados: atuais
preocupações”), que elenca em 13 capítulos o que considera riscos potenciais
não considerados antes de se autorizar a liberação dos mosquitos transgênicos.
O documento também aponta falhas na condução dos experimentos pela Oxitec.
Por exemplo, após dois anos das liberações nas Ilhas Cayman,
apenas os resultados de um pequeno teste haviam aparecido numa publicação
científica. No começo de 2011,
a empresa submeteu os resultados do maior experimento
nas Ilhas à revista Science, mas o artigo não foi publicado. Apenas em setembro
do ano passado o texto apareceu em outra revista, a Nature Biotechnology,
publicado como “correspondência” – o que significa que não passou pela revisão
de outros cientistas, apenas pela checagem do próprio editor da publicação.
Para Helen Wallace, a ausência de revisão crítica dos pares
científicos põe o experimento da Oxitec sob suspeita. Mesmo assim, a análise do
artigo, segundo o documento, sugere que a empresa precisou aumentar a proporção
de liberação de mosquitos transgênicos e concentrá-los em uma pequena área para
que atingisse os resultados esperados. O mesmo teria acontecido no Brasil, em Itaberaba. Os resultados
do teste no Brasil também ainda não foram publicados pela Moscamed. O gerente
do projeto, Danilo Carvalho, informou que um dos artigos já foi submetido a uma
publicação e outro está em fase final de escrita.
Outro dos riscos apontados pelo documento está no uso comum
do antibiótico tetraciclina. O medicamento é responsável por reverter o gene
letal e garantir em laboratório a sobrevivência do mosquito geneticamente
modificado, que do contrário não chegaria à fase adulta. Esta é a diferença
vital entre a sorte dos mosquitos reproduzidos em laboratório e a de suas
crias, geradas no meio ambiente a partir de fêmeas selvagens – sem o
antibiótico, estão condenados à morte prematura.
A tetraciclina é comumente empregada nas indústrias da
pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades da
substância através de seus efluentes. O antibiótico também é largamente usado
na medicina e na veterinária. Ou seja, ovos e larvas geneticamente modificados
poderiam entrar em contato com o antibiótico mesmo em ambientes não controlados
e assim sobreviverem. Ao longo do tempo, a resistência dos mosquitos
transgênicos ao gene letal poderia neutralizar seu efeito e, por fim, teríamos
uma nova espécie geneticamente modificada adaptada ao meio ambiente.
A hipótese é tratada com ceticismo pela Oxitec, que minimiza
a possibilidade disto acontecer no mundo real. No entanto, documento
confidencial tornado público mostra que a hipótese se mostrou, por acaso, real
nos testes de pesquisador parceiro da empresa. Ao estranhar uma taxa de
sobrevivência das larvas sem tetraciclina de 15% – bem maior que os usuais 3%
contatos pelos experimentos da empresa –, os cientistas da Oxitec descobriram
que a ração de gato com a qual seus parceiros estavam alimentando os mosquitos
guardava resquícios do antibiótico, que é rotineiramente usado para tratar
galinhas destinadas à ração animal.
O relatório da GeneWatch chama atenção para a presença comum
do antibiótico em dejetos humanos e animais, assim como em sistemas de esgotamento
doméstico, a exemplo de fossas sépticas. Isto caracterizaria um risco
potencial, já que vários estudos constataram a capacidade do Aedes aegyptise
reproduzir em águas contaminadas – apesar de isso ainda não ser o mais comum,
nem acontecer ainda em Juazeiro, segundo a Secretaria de Saúde do município.
Além disso, há preocupações quanto a taxa de liberação de
fêmeas transgênicas. O processo de separação das pupas (último estágio antes da
vida adulta) é feito de forma manual, com a ajuda de um aparelho que reparte os
gêneros pelo tamanho (a fêmea é ligeiramente maior). Uma taxa de 3% de fêmeas
pode escapar neste processo, ganhando a liberdade e aumentando os riscos
envolvidos. Por último, os experimentos ainda não verificaram se a redução na
população de mosquitos incide diretamente na transmissão da dengue.
Todas as críticas são rebatidas pela Oxitec e pela Moscamed,
que dizem manter um rigoroso controle de qualidade – como o monitoramento
constante da taxa de liberação de fêmeas e da taxa de sobrevivências das larvas
sem tetraciclina. Desta forma, qualquer sinal de mutação do mosquito seria
detectado a tempo de se suspender o programa. Ao final de aproximadamente um
mês, todos os insetos liberados estariam mortos. Os mosquitos, segundo as
instituições responsáveis, também não passam os genes modificados mesmo que
alguma fêmea desgarrada pique um ser humano.
Mosquito transgênico à venda
Em julho passado, depois do êxito dos testes de campo em Juazeiro, a Oxitec
protocolou a solicitação de licença comercial na Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança (CTNBio). Desde o final de 2012, a empresa britânica
possui CNPJ no país e mantém um funcionário em São Paulo. Mais
recentemente, com os resultados promissores dos experimentos em Juazeiro,
alugou um galpão em Campinas e está construindo o que será sua sede brasileira.
O país representa hoje seu mais provável e iminente mercado, o que faz com que
o diretor global de desenvolvimento de negócios da empresa, Glen Slade, viva
hoje numa ponte aérea entre Oxford e São Paulo.
“A Oxitec está trabalhando desde 2009 em parceria com a USP
e Moscamed, que são parceiros bons e que nos deram a oportunidade de começar
projetos no Brasil. Mas agora acabamos de enviar nosso dossiê comercial à
CTNBio e esperamos obter um registro no futuro, então precisamos aumentar nossa
equipe no país. Claramente estamos investindo no Brasil. É um país muito
importante”, disse Slade numa entrevista por Skype da sede na Oxitec, em
Oxford, na Inglaterra.
A empresa de biotecnologia é uma spin-out da universidade
britânica, o que significa dizer que a Oxitec surgiu dos laboratórios de uma
das mais prestigiadas universidades do mundo. Fundada em 2002, desde então vem
captando investimentos privados e de fundações sem fins lucrativos, tais como a
Bill & Melinda Gates, para bancar o prosseguimento das pesquisas. Segundo
Slade, mais de R$ 50 milhões foram gastos nesta última década no
aperfeiçoamento e teste da tecnologia.
O executivo espera que a conclusão do trâmite burocrático
para a concessão da licença comercial aconteça ainda próximo ano, quando a sede
brasileira da Oxitec estará pronta, incluindo uma nova biofábrica. Já em
contato com vários municípios do país, o executivo prefere não adiantar nomes.
Nem o preço do serviço, que provavelmente será oferecido em pacotes anuais de
controle da população de mosquitos, a depender o orçamento do número de
habitantes da cidade.
“Nesse momento é difícil dar um preço. Como todos os
produtos novos, o custo de produção é mais alto quando a gente começa do que a
gente gostaria. Acho que o preço vai ser um preço muito razoável em relação aos
benefícios e aos outros experimentos para controlar o mosquito, mas muito
difícil de dizer hoje. Além disso, o preço vai mudar segundo a escala do
projeto. Projetos pequenos não são muito eficientes, mas se tivermos a
oportunidade de controlar os mosquitos no Rio de Janeiro todo, podemos
trabalhar em grande escala e o preço vai baixar”, sugere.
A empresa pretende também instalar novas bio fábricas nas
cidades que receberem grandes projetos, o que reduzirá o custo a longo prazo,
já que as liberações precisam ser mantidas indefinidamente para evitar o
retorno dos mosquitos selvagens. A velocidade de reprodução do Aedes aegypti é
uma preocupação. Caso seja cessado o projeto, a espécie pode recompor a
população em poucas semanas.
“O plano da empresa é conseguir pagamentos repetidos para a
liberação desses mosquitos todo ano. Se a tecnologia deles funcionar e
realmente reduzir a incidência de dengue, você não poderá suspender estas
liberações e ficará preso dentro desse sistema. Uma das maiores preocupações a
longo prazo é que se as coisas começarem a dar errado, ou mesmo se tornarem
menos eficientes, você realmente pode ter uma situação pior ao longo de muitos
anos”, critica Helen Wallace.
O risco iria desde a redução da imunidade das pessoas à
doença, até o desmantelamento de outras políticas públicas de combate à dengue,
como as equipes de agentes de saúde. Apesar de tanto a Moscamed quanto a
própria secretaria de Saúde de Juazeiro enfatizarem a natureza complementar da
técnica, que não dispensaria os outros métodos de controle, é plausível que
hajam conflitos na alocação de recursos para a área. Hoje, segundo Mário
Machado da secretaria de Saúde, Juazeiro gasta em média R$ 300 mil por mês
no controle de endemias, das quais a dengue é a principal.
A secretaria negocia com a Moscamed a ampliação do
experimento para todo o município ou mesmo para toda a região metropolitana
formada por Juazeiro e Petrolina – um teste que cobriria meio milhão pessoas –,
para assim avaliar a eficácia em grandes contingentes populacionais. De
qualquer forma e apesar do avanço das experiências, nem a organização social
brasileira nem a empresa britânica apresentaram estimativas de preço pra uma
possível liberação comercial.
“Ontem nós estávamos fazendo os primeiros estudos, pra
analisar qual é o preço deles, qual o nosso. Porque eles sabem quanto custa o
programa deles, que não é barato, mas não divulgam”, disse Mário Machado.
Em reportagem do jornal britânico The Observer de julho do
ano passado, a Oxitec estimou o custo da técnica em “menos de” £6 libras
esterlinas por pessoa por ano. Num cálculo simples, apenas multiplicando o número
pela contação atual da moeda britânia frente ao real e desconsiderando as
inúmeras outras variáveis dessa conta, o projeto em uma cidade de 150 mil
habitantes custaria aproximadamente R$ 3,2 milhões por ano.
Se imaginarmos a quantidade de municípios de pequeno e médio
porte brasileiros em que a dengue é endêmica, chega-se a pujança do mercado que
se abre – mesmo desconsiderando por hora os grandes centros urbanos do país,
que extrapolariam a capacidade atual da técnica. Contudo, este é apenas uma fatia
do negócio. A Oxitec também possui uma série de outros insetos transgênicos,
estes destinados ao controle de pragas agrícolas e que devem encontrar campo
aberto no Brasil, um dos gigantes do agronegócio no mundo.
Aguardando autorização da CTNBio, a Moscamed já se preparara
para testar a mosca-das-frutas transgênica, que segue a mesma lógica do Aedes
aegypti. Além desta, a Oxitec tem outras 4 espécies geneticamente modificadas
que poderão um dia serem testadas no Brasil, a começar por Juazeiro e o Vale do
São Francisco. A região é uma das maiores produtoras de frutas frescas para
exportação do país. 90% de toda uva e manga exportadas no Brasil saem daqui.
Uma produção que requer o combate incessante às pragas. Nas principais avenidas
de Juazeiro e Petrolina, as lojas de produtos agrícolas e agrotóxicos se
sucedem, variando em seus totens as logos das multinacionais do ramo.
“Não temos planos concretos [ além da mosca-das-frutas ],
mas, claro, gostaríamos muito de ter a oportunidade de fazer ensaios com esses produtos
também. O Brasil tem uma indústria agrícola muito grande. Mas nesse momento
nossa prioridade número 1 é o mosquito da dengue. Então uma vez que tivermos
este projeto com recursos bastante, vamos tentar acrescentar projetos na
agricultura.”, comentou Slade.
Ele e vários de seus colegas do primeiro escalão da empresa
já trabalharam numa das gigantes do agronegócio, a Syngenta. O fato, segundo
Helen Wallace, é um dos revelam a condição do Aedes aegypti transgênico de
pioneiro de todo um novo mercado de mosquitos geneticamente modificados: “Nos
achamos que a Syngenta está principalmente interessada nas pragas agrícolas. Um
dos planos que conhecemos é a proposta de usar pragas agrícolas geneticamente
modificadas junto com semestres transgênicas para assim aumentar a resistências
destas culturas às pragas”.
“Não tem nenhum relacionamento entre Oxitec e Syngenta dessa
forma. Talvez tenhamos possibilidade no futuro de trabalharmos juntos. Eu
pessoalmente tenho o interesse de buscar projetos que possamos fazer com
Syngenta, Basf ou outras empresas grandes da agricultura”, esclarece Glen
Slade.
Em 2011,
a indústria de agrotóxicos faturou R$14,1 bilhões no
Brasil. Maior mercado do tipo no mundo, o país pode nos próximos anos inaugurar
um novo estágio tecnológico no combate às pestes. Assim como na saúde coletiva,
com o Aedes aegypti transgênico, que parece ter um futuro comercial promissor.
Todavia, resta saber como a técnica conviverá com as vacinas contra o vírus da
dengue, que estão em fase final de testes – uma desenvolvida por um laboratório
francês, outra pelo Instituto Butantan, de São Paulo. As vacinas devem chegar
ao público em 2015. O mosquito transgênico, talvez já próximo ano.
Dentre as linhagens de mosquitos transgênicos, pode surgir
também uma versão nacional. Como confirmou a professora Margareth de Lara
Capurro-Guimarães, do Departamento de Parasitologia da USP e coordenadora do
Programa Aedes Transgênico, já está sob estudo na universidade paulista a
muriçoca transgênica. Outra possível solução tecnológica para um problema de
saúde pública em Juazeiro da Bahia – uma cidade na qual, segundo levantamento
do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2011, a rede de esgoto só
atende 67% da população urbana.